minha avó morreu num 20 de março. passou uma semana morrendo, enquanto eu trabalhava, respirava, comia. eu pensava nela enquanto fazia essas coisas todas, tão triviais. nela puxando o ar com força, a respiração difícil, o corpo desistindo. ela tinha sido tão forte. alta, imponente, brava. fazia os coques mais bonitos pra eu ir para o balé. era sempre o primeiro telefonema no meu aniversário.
dias depois da morte, quando todas estávamos prontas, fomos até sua casa, pra separar suas coisas. eu tinha um objetivo claro em mente. eu queria uma caixinha de guardados. minha avó tinha várias, e quase nunca me deixava mexer nelas. dentro, botões, fotos antigas. bilhetes, mechas dos nossos cabelos quando éramos crianças.
todas as coisas importantes da dona tays ali. escolhi uma caixa florida e alta. dentro, uns óculos de armação fina de arame, já quebrada, a lente quase saindo. eram os óculos de minha bisavó, sua mãe. eu tenho o nome dela, constança.
o que eu pretendo fazer com esse espaço? nada. tudo. um exercício de leveza. todos os meus outros blogs sempre pesaram. dessa vez não.
:)